terça-feira, 13 de outubro de 2009

Como é feita a Eleição Papal?

Acredito que muitos leitores devam lembrar-se da última eleição papal ocorrida no ano de 2005, com o anúncio do novo sumo pontífice, o papa Bento XVI. Mas será que sabemos a origem dessa eleição? Será que entendemos o porquê do seu nome ser Conclave? Esse é mais um importante tema sobre a História da Igreja Católica, onde podemos entender como se dá a escolha do sucessor do Apóstolo Pedro.

- Aspectos Gerais

Primeiramente lembro que o Papa é bispo de Roma e sucessor de Pedro (Mt 16, 18-19). É o chefe de toda a Igreja Católica Apostólica Romana. Está acima de todos os bispos (Apóstolos). Ele legisla para toda a Igreja através de Bulas, Encíclicas e Decretais. Jesus de Nazaré, segundo a Bíblia, fez de Pedro o fundamento visível da Igreja, entregou as ”chaves”. Assim, o bispo de Roma, sucessor de Pedro é a cabeça do colégio dos bispos, Vigário de Cristo na Terra, é o Pastor da Igreja Universal. Ele possui três funções: é chefe de Estado (Vaticano), é bispo de Roma e Chefe da Igreja.

Os cardeais são bispos que fazem parte, desde 1059, com o papa francês Nicolau II (1059-1061), de um colegiado (Prelados do Sacro Colégio Pontifício), os quais têm a função, desde 1274, no Concílio de Lyon II, de elegerem o novo Papa.

Lembro que a Idade Média não pode ser estudada sem que o pesquisador situe no tempo e espaço o alvo de sua pesquisa, contudo, podemos entender de maneira mais ampla que, durante o período medieval, houve uma disputa entre: o poder temporal (dos reis) e o poder espiritual (dos papas).

Sabemos que durante a Idade Média, a Europa Ocidental ficou sob o domínio de grupos germânicos, conhecidos erradamente por “bárbaros” e por muçulmanos. O território ficou subdividido em muitos reinos e o poder foi ficando atomizado (poder local forte). Assim, muitos desses reis tinham forte influência na política local e, por conseguinte, nas questões religiosas. A História nos traz vários exemplos de reis que agiram dessa forma: Imperador Honório (418 d.C.), rei Odoacro (483 d.C.), rei Teodorico (498 d.C.), dentre outros.

Essa querela teve diferentes desfechos dependendo da época e da localidade, mas uma coisa era muito comum: reis queriam intervir na escolhas dos bispos e demais cargos religiosos. Interferiam querendo eles mesmos eleger tais cargos, ou queria que seus filhos ou seus subordinados fizessem parte desse colegiado. Sabemos que a cidade de Roma teve alguns papas (bispo de Roma) sendo eleitos dessa forma.

- Como ocorre o conclave?

Esta palavra (Conclave) aparece pela primeira vez num documento do papa Gregório X (1271-1276), no II Concílio de Lion, Julho de 1274. O título do documento era •Ubi periculum.• (Quando houver algum perigo). Tentando diminuir tal interferência de pessoas estranhas, ele ordenou que os cardeais fossem fechados na sala com chave – “Conclave”. E tem sido assim desde então.

A votação se inicia imediatamente depois que todos os cardeais eleitores - os que têm menos de 80 anos - entram na Capela Sistina, no Vaticano. Caso ninguém seja apontado por ao menos dois terços dos membros votantes do colégio cardinalício, nos dias seguintes ocorrem duas votações de manhã e outras duas à tarde. Os cardeais são mantidos em total isolamento do mundo exterior: não podem usar telefone, receber jornais, ver televisão, dentre outros.

Eles se reúnem e é necessário que se tenha 2/3 de aprovação para que esta eleição seja aceita e validada.

Após três dias de votações sem resultado, ocorre uma suspensão de um dia para uma “pausa de oração”. Em seguida, as votações voltam a ser realizadas e, se ainda assim o pontífice não for escolhido, será efetuado outro intervalo, seguido por sete tentativas.

Enquanto a decisão ainda não foi tomada, as cédulas de votação são queimadas numa lareira junto com palha úmida, produzindo no Vaticano uma fumaça preta que indica que o processo continua em andamento. A fumaça branca, produzida coma a queima apenas das cédulas, indica que o novo papa foi escolhido.

O eleito é oficialmente perguntado se aceita ou não a eleição. Caso a aceite, se quiser, escolhe um novo nome.

A tradição de os Papas adotarem um novo nome data de 533, quando um padre chamado Mercúrio foi eleito bispo de Roma. Por achar que Mercúrio era um nome pagão demais para um Papa, adotou João II. Até então os Papas eram simplesmente chamados por seu nome de batismo. Lembro ainda que foi o papa João Paulo, em 1978, o primeiro a utilizar um duplo nome. Por ser um grande amigo e admirador, o seu sucessor, continuou esse procedimento, assumindo como João Paulo II.

Procede-se depois a uma curta procissão até uma janela da Basílica de S. Pedro que dê para a Praça, onde o novo Sumo Pontífice é revelado e faz a sua primeira bênção: Urbi et Orbi. Minutos antes, o cardeal mais velho anunciará o que é esperado: Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam (Anuncio-vos uma grande alegria: Temos Papa), dando o nome de batismo e o nome adotado pelo novo papa.
Após esse momento, os sinos da Basílica de São Pedro começam a soar, e a seguir os das igrejas de todo o mundo.

Abaixo, podemos observar tal vestuário no dia da eleição dos últimos cinco papas:


No ultimo Conclave realizado em 2005, o Brasil, com oito cardeais, foi, junto com a Alemanha, o quarto maior país em representação no Colégio de Cardiais em Roma. Em primeiro lugar está a Itália, com 40, à frente de Estados Unidos, com 14, e Espanha, com 9. O Colégio contou com 164 cardeais.

Por continentes, a Europa continua dominando o colégio (101 cardeais), à frente de América Latina (29 cardeais), América do Norte (23 cardeais), África (18 cardeais), Ásia (18 cardeais) e Oceania (05 cardeais).


- Fontes:

- ALBERIGO, Guiuseppe (dir.) História dos Concílios Ecumênicos. Paulus, São Paulo: 1995.
- BALARD, Michel. GENET, Jean-Philippe. ROUCHE, Michel. A Idade Média do Ocidente. Dom Quixote, Lisboa: 1990.
- COMBY, J. Para Ler a História da Igreja. Das Origens ao século XV. 1 vol. Loyola, São Paulo: 1993.
- FRÖHLICH, Roland. Curso Básico de História da Igreja. Paulinas, São Paulo: 1987.
- GOMES, Francisco José Silva. A Cristandade Medieval entre o mito e a utopia. In: TOPOI. Revista de História. Rio de Janeiro: PPGHIS da UFRJ/7 Letras, set. 2002, nº 5, pp. 221-231.
___________. A Igreja e o poder, representações e discursos. In: RIBEIRO, Maria Eurydice (org.). A vida na Idade Média. Unb, Brasília: 1997, pp. 33-60.
- KNOWLES, D. e OBOLENSKY, D. Nova História da Igreja. A Idade Média. 2 vols. Vozes, Petrópolis: 1974.
- PAREDES, Javier (dir.) et alli. Diccionario de los papas y los concilios. Barcelona: Ariel, 1998.
- PIERNARD, Pierre. História da Igreja. Paulinas, São Paulo: 1982.
- VAUCHEZ, André. A espiritualidade na Idade Média Ocidental (Séc VIII a XIII). Jorge Zahar, Rio de Janeiro: 1995.
- http://www.vatican.va/
- http://www.cleofas.com.br/

Juberto Santos

A Igreja na Atualidade (1962-Atual)

Já se sabe que, a partir do pontificado de João XXIII - Ângelo G. Roncalli (1958-1963) e de suas encíclicas “Mater et Magistra” e “Pacen in Terris”, a Igreja Católica passa a tomar sérias posições frente aos problemas do mundo contemporâneo. A partir daí, ela assumiu uma posição clara e definida: O Concílio Vaticano II, a encíclica Populorum Progressio, de Paulo VI, e as reuniões do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) foram momentos marcantes, pois definiram o posicionamento da Igreja em face das atuais condições de vida. Vamos analisar algumas de suas declarações marcantes. No Brasil, ocorre a Criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, a 14 de outubro de 1952, uma das primeiras a se constituir.

1º CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO – CELAM (1955)

A Primeira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizou-se no Rio de Janeiro, de 25 de julho a 4 de agosto de 1955. A decisão mais importante desta conferência foi o pedido dirigido ao Papa Pio XII - Eugenio Giuseppe Maria Giovanni Pacelli (1939 -1958) para se criar um organismo que pudesse unir mais as forças da Igreja Católica na América Latina. Nasceu desta proposição o Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). O Papa aprovou o pedido em 2 de novembro de 1955.

O CONCÍLIO VATICANO II (1962-1965)

Iniciado em 11 de outubro de 1962, ele perdura até 8 de dezembro de 1965. Ele foi o XXI Concílio Ecumênico da Igreja Católica Apostólica Romana. Ele foi criado visando discutir as ações da Igreja nos tempos atuais. Na Homilia (sermão proferido durante as Missas) de abertura do CVII aos padres conciliares, o Papa da época expõe sua intenção: “Procuremos apresentar aos homens de nosso tempo, íntegra e pura, a verdade de Deus de tal maneira que eles a possam compreender e a ela espontaneamente assentir. Pois somos Pastores...” (João XXIII, 1962).

Dentre as grandes decisões vistas nesse concilio, podemos citar: O culto em língua nacional (a Missa em Latim deixa de ser executada obrigatoriamente); à utilização dos meios de comunicação social (cinema, televisão, rádio, jornais...); liberdade de consciência; a criação das Pastorais; reformas litúrgicas; a ampliação dos leigos na vida da Igreja; nova codificação do Direito Canônico; a definição de uma igreja democrática e ecumênica. O papa Paulo VI assume após a morte de João XXIII após a Primeira cessão do Concílio.

A CAMPANHA DA FRATERNIDADE (1963/1964)

Em 13 de dezembro de 1963, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) cria a “Campanha da Fraternidade - CF” com a missão de debater temas atuais e urgentes perante a sociedade. Seu objetivo é despertar a solidariedade dos seus fiéis e da sociedade em relação a um problema concreto que envolve a sociedade brasileira, buscando caminhos de solução. A cada ano é escolhido um tema, que define a realidade concreta a ser transformada, e um lema, que explicita em que direção se busca a transformação. Nos primeiros anos da Campanha, a Igreja buscou trazer os fiéis para o interior das comunidades. Percebem-se isso amplamente ao ver os lemas usados:

CF 1964 – Lembre-se: Você também é a Igreja
CF 1965 – Faça de sua paróquia uma comunidade de fé, culto e amor.
CF 1966 – Somos Responsáveis uns pelos outros
CF 1967 – Somos todos iguais, somos todos irmãos
CF 1968 – Crer com as mãos
CF 1969 – Para o outro, o próximo é você!
CF 1970 – Ser Cristão é Participar
CF 1971 – Reconciliar

Tem como objetivos permanentes: despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular os cristãos na busca do bem comum; educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor, exigência central do Evangelho; renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na Evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária - todos devem evangelizar e sustentar a ação evangelizadora e libertadora da Igreja, daí o destino da coleta final: realização de projetos de caridade libertadora e manutenção da ação evangelizadora.

A CF foi passando a atingir, a cada ano, um problema determinado e urgente que precisa do esforço de ação pastoral conjunta no Brasil. Temas como Educação, Saúde, Questão Agrária, Reconciliação, Família, Crianças, Idosos, Água, Violência, Juventude, Meios de Comunicação, Trabalho, Fome, Desigualdade Social, Solidariedade e Paz foram destacados.

2º CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (1968)

O II Conselho Episcopal aconteceu em Medelin, Colômbia, em 1968, quando foi fixado o novo posicionamento da Igreja em face das condições socioeconômicas e político-religiosas da América Latina. Em documento episcopal foram analisadas as explosões demográficas, o analfabetismo, a má distribuição de riquezas – como a concentração da propriedade das terras nas mãos de uma minoria –, a dependência ao capital estrangeiro e as tensões entre as classes e os países latino-americanos, bem como as tensões internacionais. O documento apontou a necessidade de promover uma radical modificação nas estruturas políticas, econômicas e sociais, devendo a Igreja comprometer-se nesse processo: assinalou a marginalização política do povo e as formas de opressão de grupos e de setores dominantes. Insistiu em que a Igreja devia se engajar na promoção de uma educação libertadora, na instauração de uma justiça e paz, na ajuda aos oprimidos para conhecer e lutar pelos seus direitos, e no estímulo a todas as iniciativas que contribuíssem para a formação do homem. Há a opção preferencial pelos pobres, envolvimento com os problemas político-sociais, uma educação conscientizadora, dentre outros.

3º CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (1979)

Continuando os trabalhos iniciados em Medelin, de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979, reúnem-se em Puebla, no México, a Terceira Confederação Geral do Episcopado Latino-Americano. Lá, as atenções da Igreja voltaram-se mais para os problemas sociais da América Latina, tais como: a pobreza, a fome, o analfabetismo, a dependência ao capital estrangeiro, a adoração ao lucro e, novamente, volta a criticar em termos políticos a marginalização popular. A linha de ação estava voltada para os pobres e para os jovens. Mais uma vez prevaleceu a ala progressista. Reafirmou-se a Teologia da Libertação com as propostas de mudanças profundas nas estruturas latino-americanas, em benefício da maioria, ou seja, dos pobres. Visa uma igreja Missionária, de Comunhão e Servidora. Através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBEs), passa atuar nas paróquias e dioceses valorizando a participação ativa dos leigos.

Com a morte de Paulo VI – Giovanni B. Montini (1963-1978), o pontificado foi assumido por João Paulo I – Albino Luciani (26/08/1978 – 28/09/1978), o “papa do sorriso”, que morrera um mês após assumir. Seu sucessor foi um polonês, que se autodenominou João Paulo II – Karol Wojtiyla, em 16/10/1978, em homenagem ao papa anterior. Assumindo um caráter missionário, ele viajou por todo o mundo levando mensagens de paz e de conforto aos povos. Pôs fim ao enclausuramento da Cúria Romana.

Ele privilegiou, em suas encíclicas, a família. Ele possuía um caráter mais conservador, visa temas espirituais e disciplinadores, ataca o aborto, o divorcio, o relaxamento da moral, desestruturando o meio familiar. Apontou a aflição do homem diante da tortura, da fome e da guerra. Utiliza em mais demasia o termo “Doutrina Social da Igreja”, visando um olhar mais profundo as necessidades essenciais do ser humano (alimentação, casa...). Reafirma o Celibato, condena o controle da natalidade por meios artificiais, contra a participação de clérigos na política. Faz limitações à Teologia da Libertação**, inclusive punições impostas pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Oficio) ao frei desviante Leonardo Boff. No dia 11 de outubro de 1992, o papa, após seis anos de trabalho na Cúria, apresenta o novo Catecismo da Igreja Católica visando uma catequese renovada nas fontes vivas da fé. Não se destina a substituir os catecismos locais, mas a encorajar e ajudar a redação de novos textos visando à unidade da fé e a fidelidade à doutrina católica.

4º CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (1992)

A quarta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano foi realizada em Santo Domingo (República Dominicana), em 1992. João Paulo II a convocou oficialmente no dia 12 de dezembro de 1990, estabelecendo como tema “Nova evangelização, Promoção humana, Cultura cristã”, sob o lema “Jesus Cristo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). O CELAM fora o encarregado de preparar a Conferência, tendo divulgado o Documento de Consulta em 1991. Este, após as contribuições das Igrejas locais, transformou no Documento de Trabalho, base das discussões dos bispos e convidados. Ela teria três objetivos: celebrar Jesus Cristo, ou seja, a fé e a mensagem do Senhor crucificado e ressuscitado; prosseguir e aprofundar as orientações de Medellín e Puebla; definir uma nova estratégia de evangelização para os próximos anos, respondendo aos desafios do tempo. Entre bispos, peritos e convidados participaram cerca de 350 pessoas. No desafio de implementar a Nova Evangelização, Santo Domingo enfatiza que a religiosidade popular é expressão privilegiada da inculturação da fé. Santo Domingo cita entre os desafios a serem enfrentados pela inculturação do Evangelho: a corrupção, a má distribuição de renda, as campanhas anti-natalistas, a deterioração da dignidade humana, o desrespeito à moral natural. Como linhas pastorais, incentiva trabalhar na formação cristã das consciências, zelar para que os meios de comunicação não manipulem nem sejam manipulados, a apresentar a vida moral como seguimento de Cristo, favorecer a formação permanente de clero e laicato, acompanhar pastoralmente os construtores da sociedade. Os bispos pedem ainda ações pastorais junto aos indígenas e aos afro-americanos.

A Teologia da Libertação à O termo libertação foi cunhado a partir das realidades culturais, sociais, econômicas e políticas sob as quais se encontrava a América Latina, a partir das décadas de 1960/70. Alguns teólogos deste período, católicos e protestantes, assumiram a libertação como paradigma de todo fazer teológico. Ela é uma teologia propriamente cristã; por isso, utiliza a Bíblia como pressuposto necessário de seus discursos. É baseada em ideais de amor e libertação de todas as formas de opressão (especialmente opressão econômica. Ela é analisada de três formas, os três P's: Profissional, pelos teólogos; Pastoral, nas igrejas e CEBs (Comunidades Eclesiais de Base); Popular, pelo povo oprimido no dia-dia.

A Morte de João Paulo II e o Conclave

Em 02 de abril de 2005, João Paulo II morre e, no dia 24 de abril, quem assume o Pontificado é o ex-cardeal alemão Joseph Ratzinger de 78 anos, com o nome de Bento XVI, seguindo a mesma linha de João Paulo II. Com a morte do “papa peregrino”, vimos o mundo com muitas dúvidas a respeito da Doutrina Católica e os rumos do Cristianismo com o novo Pontífice. Questões foram levantadas, propostas novas e muitas críticas. Antes de o Conclave (termo que significa reunião fechada, onde todos estão fechados “com chave”) iniciar, os meios de comunicação diziam: “O novo papa terá que fazer isso...” ou “Ele terá que aceitar aquilo...” e, muitas das vezes, tais propostas e críticas não caberiam a ele decidir. Seria a modernidad e do Catolicismo, com os grupos progressistas. Eis alguns exemplos: Aceitar o casamento Homossexual; Aceitar o aborto; Aceitar o fim da indissolubilidade do casamento; Aceitar a ordenação de mulheres; Aceitar o uso da camisinha e demais métodos anticoncepcionais; Aceitar pesquisas com embriões humanos em futuras pesquisas; Aceitar o fim do Celibato. O resultado dessas intensas pressões mostraria que o Papa jamais poderá ir de encontro à Bíblia, pois é a base da fé católica. Logo, as únicas coisas (das citadas a cima), que ele poderia alterar seria: a questão da ordenação feminina e o celibato, pois estão vinculadas as tradições da Igreja e não nas Escrituras. Vemos ainda o grupo “regressista”, considerado mais conservador dentro da igreja. Outro ponto é a perda de fiéis perante os grupos neopentecostais e doutrinas protestantes.

5º CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (2007)

A Vinda de Bento XVI ao Brasil

A visita do papa Bento XVI ao Brasil, ocorrida no período de 9 a 13 de maio de 2007, foi motivada por algumas circunstâncias. Dentre elas está a canonização de Frei Antônio de Santana Galvão, que ocorreu no dia 11 de maio de 2007, em São Paulo. Outro compromisso foi a participação em um Encontro com os Jovens no Estádio Municipal do Pacaembu e um encontro com os Bispos do Brasil na Catedral da Sé, em São Paulo, no dia 10. O grande motivo foi a Sessão Inaugural dos trabalhos da V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE, no Santuário de Aparecida/SP, que aconteceu de 13 a 31 de maio.

O tema da Quinta Conferência foi: “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida”, inspirado na passagem do Evangelho de João que narra “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). A Conferência foi convocada pelo Papa João Paulo II e confirmada pelo Papa Bento XVI.

A conferência buscou compilar as novas propostas de evangelização para a América Latina, novas frentes de trabalho, novos campos de ação e metidos. Muitos documentos importantes foram escritos durante a Conferência.

O papa celebrou Missas, teve ainda um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (foto), onde assinalou a importância do retorno do ensino religioso, condenou a legalização do aborto, enfatizando que o cristianismo prega a vida e não a morte. Sua vinda ao Brasil também foi uma forma de animar os fiéis brasileiros, pois é visto que, a cada ano, cerca de 1% dos católicos deixam a religião, desde 1992. O país mais católico do mundo estaria passando por um momento de turbulência, dizem alguns especialistas.



Juberto Santos
historiador_ufrj@yahoo.com.br
A CAMPANHA DA FRATERNIDADE (CF)



A Campanha da Fraternidade surgiu durante o desenvolvimento do Concílio Vaticano II (1962-1965). A cada ano, desde 1964, a Igreja no Brasil pr opõe a todos os cristãos, a Campanha da Fraternidade (CF). Essa campanha desenvolveu-se mais intensamente durante a Quaresma, mas aos poucos, seu tema foi sendo refletido e engajado dentro da vida da Igreja durante todo o ano. É sempre um tema bem concreto através do qual, somos convidados a reconsiderar e, sobretudo, nossas atitudes para com o próximo, dando dimensão concreta à nossa conversão pessoal e à de nossas comunidades de Igreja.

A Quaresma é o período de 40 dias entre a Quarta-feira de cinzas – logo após o Carnaval - e a Semana Santa (que se inicia com o Domingo de Ramos). Durante a Quaresma, a Igreja e todos os cristãos preparam-se para a Páscoa. A Páscoa possui três interpretações: é a antiga festa de pastores para comemorar a primavera; é a festa dos Hebreus, para relembrar sua saída do Egito, no tempo de Moisés; é a festa anual dos Cristãos para celebrar a Ressurreição de Cristo.

É nesse contexto que inicia a CF, a qual é um projeto que procura animar todas as comunidades num compromisso pastoral concreto que marque a unidade da Evangelização pelo empenho comum em prol da solidariedade e fraternidade que nascem do amor de Cristo. Durante esse período, a liturgia trabalha paralelamente com a Campanha. Os cantos litúrgicos da missa, as preces e outras orações são voltados também para o tema que está sendo trabalhado. A CF atinge, cada ano, um problema determinado e urgente que precisa do esforço de ação pastoral conjunta no país, desafios sociais, econômicos, políticos, culturais e religiosos da realidade brasileira;

Inicialmente, a igreja buscou rever sua parte interna, tanto que as primeiras campanhas tinham por objetivo principal reaproximar os leigos das atividades comunitárias e pastorais, além de reforçar a vivência na paróquia e na comunidade. Dessa forma, os primeiros temas da Campanha da Fraternidade contemplaram mais a vida interna da Igreja. A partir dos anos de 1970 essa postura muda e a Igreja passa a Igreja preocupa-se com a realidade social da população, denunciando o pecado social e promovendo a justiça.


- Algumas Funções da Campanha da Fraternidade (CF):


• É uma campanha quaresmal, que une em si as exigências da conversão, da oração, do jejum e da doação. Convoca os cristãos a uma maior participação nos sofrimentos de Cristo como possibilidade de auxílio aos pobres
• início na quaresma e ressonância no ano todo (Cf. CNBB, Pastoral da Penitência, Doc. 34, nº. 4.3)
• É um grande instrumento para desenvolver o espírito quaresmal: conversão, renovação interior e ação comunitária em preparação da Páscoa.
• Meio para viver os três elementos fundamentais da espiritualidade quaresmal: Oração – Jejum – esmola
• A CF é especialmente manifestada na evangelização libertadora, clama a renovar a vida da Igreja, a transformar a sociedade e a partir de temas específicos, tratados à luz do Projeto de Deus.


- TODOS OS TEMAS E OS LEMAS DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE

CF 1964 – Igreja em Renovação - Lembre-se: você também é Igreja
CF 1965 – Paróquia em Renovação - Faça de sua paróquia uma Comunidade de fé, culto e amor
CF 1966 – Fraternidade - Somos responsáveis uns pelos outros
CF 1967 – Co-responsabilidade - Somos todos iguais, somos todos irmãos
CF 1968 – Doação - Crer com as mãos
CF 1969 – Descoberta - Para o outro, o próximo é você
CF 1970 – Participação - Participar
CF 1971 – Reconciliação - Reconciliar
CF 1972 – Serviço e Vocação - Descubra a felicidade de servir
CF 1973 – Fraternidade e Libertação - O egoísmo escraviza, o amor liberta
CF 1974 – Reconstruir a vida - Onde está teu irmão?
CF 1975 – Fraternidade é Repartir - Repartir o Pão
CF 1976 – Fraternidade e Comunidade - Caminhar juntos
CF 1977 – Fraternidade na Família - Comece em sua casa
CF 1978 – Fraternidade no Mundo do Trabalho - Trabalho e justiça para todos
CF 1979 – Por um mundo mais humano - Preserve o que é de todos
CF 1980 – Fraternidade No mundo das migrações - Para onde vais?
CF 1981 – Saúde e Fraternidade - Saúde para todos
CF 1982 – Educação e Fraternidade - A verdade vos libertará
CF 1983 – Fraternidade e Violência - Fraternidade sim, violência não
CF 1984 – Fraternidade e Vida - Para que todos tenham Vida
CF 1985 – Fraternidade e Fome - Pão para quem tem fome
CF 1986 – Fraternidade e Terra - Terra de Deus, terra de irmãos
CF 1987 – A Fraternidade e o menor - Quem acolhe o menor, a Mim acolhe
CF 1988 – A Fraternidade e o negro - Ouvi o clamor deste povo!
CF 1989 – A Fraternidade e a Comunicação - Comunicação para a verdade e a paz
CF 1990 – A Fraternidade e a Mulher - Mulher e homem: imagem de Deus
CF 1991 – A Fraternidade e o mundo do Trabalho - Solidários na dignidade do trabalho
CF 1992 – Fraternidade e Juventude - Juventude - caminho aberto
CF 1993 – Fraternidade e Moradia - Onde moras?
CF 1994 – Fraternidade e Família – A Família, como vai?
CF 1995 – A Fraternidade e os excluídos - Eras tu, Senhor?
CF 1996 – A Fraternidade e a Política - Justiça e paz se abraçarão!
CF 1997 – A Fraternidade e os encarcerados - Cristo liberta de todas as prisões!
CF 1998 – Fraternidade e Educação - A serviço da vida e da esperança!
CF 1999 – Fraternidade e os Desempregados - Sem trabalho... Por quê?
CF 2000 – Dignidade Humana e Paz - Novo milênio sem exclusões (Ecumênica)
Na celebração do Grande Jubileu da Encarnação a Campanha da Fraternidade foi realizada pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC).
CF 2001 – Vida Sim, Drogas Não!
CF 2002 – Fraternidade e povos Indígenas - Por uma terra sem males
CF 2003 – Fraternidade e pessoas Idosas
CF 2004 – Fraternidade e Água - Dignidade, Vida e Esperança
CF 2005 – Solidariedade e Paz - Felizes os que promovem a Paz
CF 2006 – Fraternidade e pessoas com deficiência - Levanta-te, vem para o meio!
CF 2007 – Fraternidade e Amazônia - Vida e missão neste chão
CF 2008 – Fraternidade e defesa da vida - Escolhe, pois a vida
CF 2009 – Fraternidade e Segurança Pública - A paz é fruto da justiça



- COLETA NO DOMINGO DE RAMOS

No final da Campanha, cada comunidade é chamada a um gesto generoso, cuja destinação não contemplará apenas necessidades dela. Pela sua doação, a comunidade vai ajudar a Igreja desenvolver obras de promoção humana e a sustentar a ação pastoral. Certamente não há Diocese do Brasil que não tenha já recebido ajuda de irmãos e instituições eclesiais de outros países. Numerosas paróquias e comunidades receberam ajuda financeira de entidades católicas do estrangeiro para as mais diversas finalidades: construção de igrejas, de centros comunitários, programas de formação, seminários... Dessa forma, a CF se expressa concretamente pela oferta de doações em dinheiro na Coleta da solidariedade. É um gesto concreto de fraternidade feito em âmbito nacional, em todas as comunidades cristãs, paróquias e dioceses.

Na coleta da Campanha, cada comunidade dá conforme pode, com cada uma colaborando de acordo com suas possibilidades. A colaboração deve ser generosa, gratuita, solidária e libertadora. A coleta da Campanha da Fraternidade, grande gesto concreto de fraternidade, deve tornar-se logo meio privilegiado para a auto-sustentação da Igreja no Brasil, garantindo recursos financeiros para ela manter obras sociais, programas de formação de leigos engajados, a infra-estrutura pastoral. A CNBB já recebe razoável recurso desta coleta para preparar a Campanha de cada ano e para as atividades que desenvolve.



- QUANDO TERMINA A CAMPANHA?

Alguns podem pensar que, após a Páscoa, a campanha chega ao fim, todavia, é um grande equívoco. Ela perdura pelo ano inteiro, junto com o Ano Litúrgico, atuando com fervor nas outras atividades pastorais que são desenvolvidas ao longo do ano.

Cartazes, desenhos, músicas, texto-base, textos voltados para cada pastoral, vídeos... Várias são as formas que a Campanha da Fraternidade pode ser trabalhada nas comunidades, sendo debatida e refletida pela comunidade.



Juberto Santos

A Igreja no Período da Reforma e Contra-Reforma

A Reforma Protestante

Foi o movimento que rompeu a unidade do Cristianismo centrado pela Igreja de Roma. Esse movimento é parte das grandes transformações econômicas, sociais, culturais e políticas ocorridas na Europa nos séculos XV e XVI, que enfraqueceram a Igreja permitindo o surgimento de novas doutrinas religiosas – Protestantes. A Igreja estava em crise, a burguesia crescia em importância, o nacionalismo desenvolvia-se nos Estados modernos e o Renascimento Cultural despertava a liberdade de Crítica. O termo “Igreja Católica” é posterior ao Concílio de Trento, uma forma de diferenciação perante os protestantes. Antes só existia a Cristandade. A esse movimento de divisão no cristianismo e surgimento das novas doutrinas dá-se o nome de REFORMA e à reação da Igreja, realizando modificações internas e externas, de CONTRA-REFORMA. Contudo, esse movimento foi precedido por várias manifestações nos séculos anteriores, mas nenhuma delas conseguiu o rompimento definitivo com a Igreja Romana. Dentre elas, vemos:

- Heresias Medievais (Arianismo, Valdenses, Albigenses);
- Querela de Investiduras (disputas entre os papas e os imperadores da Alemanha a partir de 1074, pelo direito de nomear bispos e abades. Só se resolve no século XII);
- Cisma do Ocidente – (Ocorrido em 1378, em que a Igreja passa a ser governada por TRÊS papas – ela se unifica em 1417);
- Movimentos Reformadores – John Wiclif (1320? -1384) e Jonh Huss (1369-1415).


Os primeiros questionamentos são referentes à questão das Indulgências (documentos assinados pelo papa, que absolviam o comprador de alguns pecados cometidos, diminuindo o tempo de sua pena no purgatório, era um comércio em vista da salvação); a Simonia {comercialização de coisas sagradas (Cargos eclesiásticos, cobrança por sacramentos, objetos...)}; o celibato, culto às imagens, excesso de sacramentos, atitude mundana do Alto Clero, dentre outras. Havia um abismo muito grande entre o que a Igreja pregava e o que fazia.

A REFORMA LUTERANA

A região da atual Alemanha não está centralizada, é agrária e feudal. A Igreja possui um terço das terras. Há descontentamento geral. Vendo tantos abusos por parte do Clero, o monge agostiniano Martinho Lutero (1483-1546) não se calou. Elaborou 95 teses e afixou-as na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, em 1517. A maioria era contra as indulgências. Principalmente as indulgências visando à construção da Basílica de São Pedro. Apoiado pela nobreza alemã, Lutero pôde divulgar suas idéias, calcada em dois princípios que se constituiriam no núcleo de sua doutrina: A Salvação somente pela fé e não pelas práticas religiosas e a Inutilidade dos Mediadores (Clero). Em Junho de 1518 foi aberto o processo contra Lutero, com base na publicação das suas 95 Teses. Alegava-se que este incorria em heresia, a ser examinado pelo processo. Nas aulas que dava na Universidade de Wittenberg, espiões registram os comentários negativos de Lutero sobre a excomunhão. Depois disso, em agosto de 1518, o processo é alterado para heresia notória. Lutero é convidado para ir a Roma, onde desmentiria sua doutrina. Lutero recusa-se a fazê-lo, alegando razões de saúde e pretende uma audiência em território alemão. O seu pedido foi aceito, ele foi convidado para uma audiência com o cardeal Caetano de Vio (Tomás Caetano), durante a reunião das cortes (Reichstag) imperiais de Augsburg. Entre 12 e 14 de Outubro de 1518, Lutero fala a Caetano. Este pede-lhe que revogue a sua doutrina. Lutero recusa-se a fazê-lo. Do lado da Igreja de Roma, o caso pareceu terminado. Por causa da morte de Imperador Maximiliano I (Janeiro de 1519), houve uma pausa de dois anos. Após a escolha de Carlos V como imperador (26 de junho de 1519), o processo de Lutero voltará a ser reatado. Em junho de 1520 reaparece a ameaça no escrito "Exsurge Domini", em Janeiro de 1521 a bula "Decet Romanum Pontificem". Com ela foi excomungado Lutero. Em 1546, no dia 18 de fevereiro, aos 62 anos, Martinho Lutero faleceu.

à Eis suas reivindicações e críticas principais:

Substituição do Latim pelo idioma alemão nos cultos religiosos; Questiona a grande quantidade de sacramentos (Preserva dois sacramentos: batismo e eucaristia); Livre interpretação da Bíblia; Contra o Celibato; Rejeita a Hierarquia Religiosa da Igreja de Roma; pregava a Salvação pela fé; Negava a Transubstanciação – afirmava a Consubstanciação (misturados); Pecado Original: Marca do gênero Humano (nem Cristo, nem o Batismo o retiram);


A REFORMA CALVINISTA

João Calvino (1509-1564) era francês, que inicia sua ruptura em Genebra, Suíça, por volta de 1536. Lá começa a publicar estudos sistemáticos sobre a nova religião. Funda uma nova doutrina que expande a Reforma. A burguesia dessa cidade havia adotado os princípios da reforma para lutar contra seu governante, o católico Duque de Savóia, o que favoreceu a atuação do reformador. Ele divergia de Lutero em alguns pontos, principalmente na questão da Salvação. Diferente de Lutero (salvação pela fé), ele defendia a idéia de que a fé não era suficiente, uma vez que o homem já nasce predestinado, ou seja, escolhido por Deus para a vida eterna ou para a sua condenação. Calvino tornou-se todo-poderoso, conseguindo impor sua doutrina, interferir nos costumes, nas crenças e na própria organização político-administrativa da cidade. O Calvinismo propagou-se rapidamente atingindo a França, a Holanda, a Inglaterra e a Escócia.

à Eis algumas de suas teorias e questionamentos:

- A riqueza material era um sinal da graça divina sobre o indivíduo. Essa teoria é assimilada pela burguesia local, que justificava não só seu comércio, como também as atividades financeiras e o lucro a elas associado. Ele justifica as atividades econômicas até então condenadas pela Igreja romana.
- Grande rigidez na moral
- Questiona a Liturgia da Missa (simplifica com o Sermão, a oração e a leitura da Bíblia).
- Questiona o uso das Imagens (houve quebra-quebra nas paróquias locais)
- Acaba com os jogos, dança ida ao teatro...
- “O homem que não quer trabalhar, não merece comer.” afirma.
- Livre Interpretação da Bíblia;
- Nega o culto aos santos e a Virgem;
- Questiona a autoridade do Papa;
- Defende a separação entre a Igreja e o Estado;
- Questiona o Celibato do clero;
- Questiona a Transubstanciação (propõe uma presença material, o Cristo está presente, mas não materialmente).
- Ele cria um conselho para reger a vida religiosa em Genebra de “12 anciãos”. Eles julgavam, ditavam regras. Consistório de Genebra.
- A doutrina afirma que não há certeza da salvação;


A REFORMA ANGLICANA

Os ingleses, durante a época dos Tudor, também criticavam os abusos da Igreja Romana, a ineficiência dos tribunais eclesiásticos e o favoritismo na distribuição de cargos públicos para membros do Clero, além de queixar-se do pagamento e do envio de dízimos para Roma. Durante o governo de Henrique VIII (1509-1547), a burguesia fazia pressão para o aumento do poder do parlamento. O rei, necessitando aumentar as riquezas do Estado, confisca as terras da Igreja, o que gera desentendimentos com o Papa. Isso se agrava quando o monarca solicita a anulação do casamento com Catarina de Aragão. Ele não tinha sucessores masculinos, temia que seu trono caísse em mãos espanholas. Toda a nação, com medo deste fato, apóia esse pedido. O Papa Clemente VII nega o pedido. O Rei rompe com o papado e faz uma reforma na Igreja Inglesa. Obriga seus membros a reconhecê-lo como chefe supremo e a jurar-lhe fidelidade e obediência. Obtém do clero inglês o divórcio e se casa com uma dama da corte, Ana Bolena. O Papa tenta intimidá-lo excomungando-o, mas não adianta. Em 1534, Henrique VIII decreta o Ato de Supremacia, que consolida a separação entre a Inglaterra e o papa. Torna-se o chefe da Igreja de seu país. A Reforma anglicana, na prática, apresenta poucas modificações com a Igreja romana: Questiona o Culto aos santos; A autoridade máxima é o Rei e não o papa; Questiona o culto às relíquias; Prega a popularização da leitura da Bíblia. A Reforma anglicana resolveu, na prática, dois problemas para a monarquia: a questão da herança do trono e com a venda das terras da Igreja para a burguesia e nobreza, dá um suporte financeiro para a Coroa.

OBSERVAÇÃO - O Calvinismo também criou raízes na Inglaterra. Seus adeptos, os puritanos, iriam entrar em choque com os anglicanos, gerando inúmeros conflitos no século XVII, que levaram às imigrações maciças para a região da Nova Inglaterra, na América do Norte.

A REFORMA ANABATISTA

THOMAS MÜNTZER (1489 - 1525) liderou uma revolta em 1524 com camponeses da região do Reno. Além de atacar a Igreja pela cobrança de dízimos, passam a reivindicar a reforma agrária e a abolição dos privilégios feudais. Ele afirmava ser Luterano. O movimento se espalhou por várias regiões alemãs com assaltos a castelos, queima dos mosteiros e roubo de colheitas. A essas manifestações, seguiu-se uma repressão violenta, apoiada por Lutero em prol da Nobreza alemã. Müntzer foi preso e decapitado e houve o massacre de milhares de camponeses. Ele foi um dos grandes pregadores do ANABATISMO (os convertidos são batizados na idade adulta, mesmo já sendo batizados quando criança). Tinham a necessidade de rebatizar os indivíduos, de separar a Igreja e o Estado, de abolir as imagens e o culto dos santos, queria uma igualdade absoluta entre os homens, viver com simplicidade, pois todos eram inspirados pelo Espírito Santo. Uma das principais questões de sua formulação teológica é a igualdade. Através do sacrifício de Cristo na cruz todos os homens se tornaram iguais perante Deus e livres do “jugo do pecado”. Com base nisso, Müntzer coloca no mesmo patamar tanto os senhores como os servos e é criticado por Lutero, uma vez que estaria reduzindo a liberdade a algo meramente carnal. Esse traço do pensamento de Müntzer (associado ao lema "omnia sunt communia") foi interpretado por alguns como uma formulação pré-socialista. No entanto, o que está em questão é algo muito diferente do socialismo do século XIX e à preocupação em se viver, em todos os sentidos, segundo a natureza humana do Filho de Deus. Com a decapitação do teólogo Thomas Müntzer, a 27 de maio de 1525, terminou a Guerra dos Camponeses, responsável pela morte de pelo menos cinco mil pessoas na região da Alemanha. Seus adeptos foram fortemente reprimidos seja nos Estados Católicos, Luteranos ou Calvinistas.

A Contra-Reforma ou Reação Catótica


O avanço do Protestantismo, não só neste momento, levou a Igreja Romana a se reorganizar. Foi um movimento de reação ao protestantismo também chamado de “Reação Católica”. A Igreja precisava se auto-reformar ou não sobreviveria, pois precisava, ainda, evitar que outras regiões virassem protestantes. Esse movimento de reforma interna já existia, mas é nesse momento que ele é aprofundado. Entre 1545 e 1563, foi convocado o CONCÍLIO DE TRENTO, pelo papa Paulo III (1534-1549) onde houve reafirmações e mudanças. O Concílio de Trento foi o mais longo da história da Igreja: é chamado Concílio da Contra-Reforma. Emitiu numerosos decretos disciplinares. O concílio especificou claramente as doutrinas católicas quanto à salvação, os sacramentos e o cânone bíblico, em oposição aos protestantes e estandardizou a missa através da igreja católica, abolindo largamente as variações locais. A nova missa estandardizada tornou-se conhecida como a "Missa Tridentina", com base no nome da cidade de Trento, onde o concílio teve lugar. Regula também as obrigações dos bispos e confirma a presença de Cristo na Eucaristia. São criados seminários como centros de formação sacerdotal e reconhece-se a superioridade do papa sobre a assembléia conciliar. É instituído o índice de livros proibidos Index Librorum Prohibitorum e reorganizada a Inquisição.

Eleito Papa em 13 de Outubro de 1534, procurou reformar a Igreja. Paulo III provou a criação da Companhia de Jesus de Inácio de Loyola em 1540. Convocou o Concílio de Trento em 1545. Excomungou Henrique VIII de Inglaterra, mas não conseguiu travar a Reforma Protestante. Concedeu a Inquisição em Portugal a D. João III. Lançou as bases da Contra-Reforma. Após a morte de Paulo III, assume o pontificado o papa Júlio III (1550-1555). Em 1536 foi nomeado cardeal-bispo de Palestrina pelo Papa Paulo III, a quem serviu em importantes legações; ele foi o primeiro a presidir ao Concílio de Trento, abrindo a primeira sessão em Trento, em 13 de Dezembro de 1545, com uma breve oração. Durante o concílio, foi o líder do partido papal contra o imperador Carlos V, com quem entrou em conflito por variadas vezes, especialmente quando, em 26 de Março de 1547, transferiu o Concílio para Bolonha. Foi sucedido pelo papa Marcelo II (9 de abril de 1555 - 1 de maio de 1555), que faleceu provavelmente por causa de sua constituição débil e pela fadiga acumulada ao fim de 21 dias de pontificado. Essa nova eleição papal atrasou as reformas. Foi eleito para seu lugar o papa Paulo IV (1555-1559). Foi nomeado cardeal em 1536 e após o curtíssimo pontificado de Marcelo II, foi eleito papa em 23 de maio de 1555, apesar da decidida oposição dos cardeais do partido ligado ao imperador Carlos V. Mesmo com idade avançada, o papa, que assumiu o nome de Paulo IV, dedicou seus anos de governo, sobretudo à organização da Inquisição romana, fundada por Paulo III graças à sua sugestão, e à reconstrução administrativa e moral das altas hierarquias católicas.

Foi Papa de 25 de Dezembro de 1559, o papa Pio IV (1559-1565), sendo o 225º papa. Contaminado pelo nepotismo, mudou a política anti-imperial do Papa anterior, Paulo IV e conseguiu concluir o concílio de Trento (1562-1563) cujos decretos começaram a ser aplicados nos últimos dois anos de seu pontificado. Publicou um novo Índice de Livros Proibidos em 1564 e reformou o Sacro Colégio. A pedido do imperador, permitiu a Eucaristia sob as duas espécies a alemães, austríacos e húngaros em 1564 para frear o avanço do protestantismo. Fracassou porem esse seu intento no leste da Alemanha, França e Inglaterra, embora se abstivesse de excomungar a Rainha Elizabeth I. Condenou a Simonia.

O Concílio acabou sendo dividido em três períodos:

1º Período (1545-48) — Celebraram-se 10 sessões, promulgando-se os decretos sobre a Sagrada Escritura e tradição, o pecado original, a justificação e os sacramentos em geral e vários decretos de reforma;

2º Período (1551-52) — Celebraram-se 6 sessões, continuando a promulgar-se, simultaneamente, decretos de reforma e doutrinais ainda sobre sacramentos em geral, a eucaristia, a penitência, e a extrema-unção. A guerra entre Carlos V e os príncipes protestantes constituiu um perigo para os padres de Trento;

3º Período (1562-63) — Convocado pelo Papa Pio IV, foi presidido pelos legados cardeais Ercole Gonzaga, Seripando, Osio, Simonetta e Sittico. Estiveram ainda no concílio os cardeais Cristoforo Madruzzo, bispo de Trento e Carlos Guise. O Papa enviou os núncios Commendone e Delfino aos príncipes protestantes do império reunidos em Naumburgo, e Martinengo à Inglaterra para convidar os protestantes a virem ao concílio. Neste período realizaram-se 9 sessões, em que se promulgaram importantes decretos doutrinais, mas, sobretudo decretos eficazes para a reforma da Igreja. Assinaram as suas actas 217 padres oriundos de 15 nações.

Eis as mais importantes resoluções vistas no Concílio de Trento:

- Esclarece a Doutrina, conserva os sete Sacramentos e confirma os Dogmas;
- Afirma a presença real de Cristo na Eucaristia, a Transubstanciação;
- Inicia a redação de um Catecismo; Criação de Seminários para a formação de sacerdotes;
- Reafirma o Celibato, a veneração aos Santos e a Virgem;
- Aprova os Estatutos da Companhia de Jesus, criada antes do Concílio por Inácio de Loyola;
- Mantém o Latim como língua do Culto e tradução oficial das Sagradas Escrituras;
- Organizou a disciplina do clero: os padres deveriam estudar e formar-se em seminários. Não poderiam ser padres antes dos 25 anos, nem bispos antes dos 30 anos;
- Reafirmava a infalibilidade do papa e o dogma da Transubstanciação;
- Confirma como texto autêntico, a tradução de São Jerônimo, no século IV; Fortalece a Hierarquia e, portanto a unidade da Igreja Católica, ao afirmar a supremacia do Papa como “Pastor Universal de toda a Igreja”
- Revê a prática das Indulgências, condenando os abusos. Revê a Simonia
- Reorganizou o tribunal da Inquisição ou Santo Ofício, que fica encarregado de combater a Reforma;
- Criação do “Índex” (índice), encarregada da censura de obras impressas, lista de livros cuja leitura era proibida aos fiéis;



Professor Juberto Santos

A Igreja na Idade Média (476-1453)

Em meio à desorganização administrativa, econômica e social produzida pelas “invasões” ou migrações germânicas e ao esfacelamento do Império Romano, praticamente apenas a Grande Igreja, com sede em Roma, conseguiu manter-se como instituição. Vemos os Vândalos na África, os Visigodos na Hispania, os Francos na Gália, os Anglos e Saxões nas Ilhas Britânicas, os bárbaros(Germânicos) na Itália. Consolidando sua estrutura religiosa, a Igreja foi difundindo o cristianismo entre os povos “bárbaros”, enquanto preservava muitos elementos da cultura greco-romana. Valendo-se de sua crescente influência religiosa, a igreja passou a exercer importante papel em diversos setores da vida medieval, servindo como instrumento de unificação, diante da “fragmentação política” (processo de atomização do poder – poder local forte) da sociedade feudal.

OBSERVAÇÃO: O termo católico (adjetivo grego que significa “Universal”) é usado a partir do Concílio de Trento (1545 - 1563) para designar a Igreja Romana em oposição às Igrejas da Reforma. Antes, o termo utilizado era Cristandade.

· Primeiramente, vamos entender a periodização:

A Idade Média (Medium Aevum ou Middle Age) é o termo usado para o período situado entre a Antiguidade e a Idade Moderna. Conceito estipulado no período do Renascimento Cultural (século XVI) voltado somente para a região da Europa Ocidental, ou seja, não há Idade Média na África, Japão, China... Cada um desses locais possuem denominações próprias para esse período. Tem como marco inicial o ano de 476 d.C (com o fim do Império Romano no Ocidente – tomada de Roma, pelo imperador germânico Odoacro) e tem seu término no ano de 1453 d.C (com o fim do Império Romano no Oriente - Tomada de Constantinopla pelos Turcos Otomanos). Suas características, entretanto, nunca foram às mesmas no tempo ou no espaço, pois não havia unidade nesse período. É preciso dizer o contexto específico. O período está dividido em: Alta Idade Média (séc. VI - X), Idade Média Central (séc. XI - XIII) e Baixa Idade Média (séc. XIV e XV). Há até hoje um forte preconceito sobre este período, tomado como “Idade das Trevas”, “Escuridão”, de “Pestes e Guerras”, não havia “cidades, nem comércio”, dentre outros adjetivos. Contudo, deve ser levado em consideração que num período de mil anos, não houve apenas pestes, guerras... Temos que ter um olhar consciente: Nesse período houve a criação das Universidades, da letra minúscula, do parlamento, Hospitais, Tribunal com Júri, aperfeiçoamento da Matemática, geografia, escrita... Devemos estudá-la sem preconceitos, com um olhar crítico e consciente.

· Entendendo o Surgimento da Cristandade

Entende-se Cristandade por um sistema de relações da Igreja e do Estado (ou qualquer outra forma de poder político) numa determinada sociedade e cultura. Ela perdura até praticamente a Revolução Francesa (1789), com várias modalidades dentro desse processo através dos séculos. Na história do cristianismo, o sistema iniciou-se por ocasião da Pax Ecclesiae em 313 (paz concedida pelo imperador Constantino à Grande Igreja), com o Edito de Milão (ele põe fim às perseguições) e deu origem à primeira modalidade de Cristandade dita “constantiniana”; a qual se apresenta como um sistema único de poder e legitimação da Igreja e do Império tardo-romano. As características gerais desta modalidade “constantiniana” são, entre outras, o cristianismo apresentar-se como uma religião de Estado, obrigatória, portanto para todos os súditos; a relação particular da Igreja e do Estado dar-se num regime de união; a religião cristã tender a manifestar-se como uma religião de unanimidade, multifuncional e polivalente; o código religioso cristão, considerado como o único oficial, ser, todavia diferentemente apropriado pelos vários grupos sociais, pelos letrados e iletrados, pelo clero e leigos. A figura ao lado é o “Monograma de Cristo”, da época de Constantino. Ele é formado por duas letras entrelaçadas, as letras gregas "chi" (X) e "rô" (P). Essas letras são as iniciais de "Christós".

· Os Padres da Igreja

Os tempos de ouro da Patrística foram os séculos IV e V, embora possa se entender que se estenda até o século VII a chamada "idade dos Padres". Os principais Pais do Oriente foram: Eusébio de Cesaréia, Santo Atanásio, Basílio de Cesaréia, Gregório de Nisa, Gregório Nazianzo, São João Crisóstomo e São Cirilo de Alexandria. Os principais Padres do Ocidente são: Santo Agostinho, autor das "Confissões", obra prima da literatura universal e Santo Ambrósio; Eusébio Jerônimo, dálmata, conhecido como São Jerônimo que traduziu a Bíblia diretamente do hebraico, aramaico e grego para o latim. Esta versão é a célebre Vulgata, cuja autenticidade foi declara pelo Concílio de Trento. Outros pais que se destacaram foram São Leão Magno e Gregório Magno, este um romano com vistas para a Idade Média, as suas obras "os Morais e os Diálogos" serão lidas pelos intelectuais da Idade Média, e o canto "gregoriano" permanece vivo até os dias de hoje. Santo Isidoro de Sevilha, falecido em 636, é considerado o último dos grandes padres ocidentais.

· A Cristandade Medieval

A Cristandade medieval ocidental é, em certa medida, a continuadora da Cristandade antiga, a do “Império Cristão” dos séculos IV e V. No contexto medieval, acentuaram-se muito mais a situação de unanimidade e conformismo, obtida por um consenso social homogeneizador e normatizador, consenso este favorecido pela constituição progressiva de uma vasta rede paroquial e clerical. As instituições todas tendiam, pois, a apresentar um caráter sacral e oficialmente cristão. Sabemos que nela predominou, em geral, a tutela do clero. Não, todavia durante os séculos IX e X, quando a tutela dos leigos sobre as instituições eclesiais a levou à sua feudalização, o que provocou a partir do século XI, o grito dos reformadores, sobretudo eclesiásticos: libertas Ecclesiae. Ocorreu então a Reforma Gregoriana, no século XI, que operou a síntese de uma reforma na e da Igreja, de uma melhora “na cabeça e nos membros”.

Nesse período vemos muitos pontos importantes. Vale a pena relembrar alguns deles:


- Fragmentação do Império Romano no Ocidente

Com as migrações germânicas e a queda do Império Romano no ocidente (476) os bispos começam a buscar a unificação. Apelam para a elite romana “Romanitas”, que passam a defender os valores cristãos. Os reis bárbaros vão se convertendo ao longo dos anos. Vemos a ação do papa Gregório I, o Magno (590-604) assinala que “todo o poder foi dado ao alto aos meus senhores para ajudar os homens a fazer o bem”. Assim os bispos e o Imperador e os reis têm a função de ajudar o bem e punir o mal. Primeiro papa monge, intitulava-se Servidor dos Servidores de Deus. Aproveitou-se da falência imperial na Itália para assumir o poder temporal. Desligou-se da influência bizantina e aproximou-se dos germânicos. Visigodos, suábios e lombardos se converteram. Agostinho foi à Inglaterra e converteu os anglo-saxões. Os escritos de Gregório Magno instruíram o clero e fortaleceram a religiosidade dos fiéis. Sua Regra Pastoral serviu de manual para os padres em toda a Idade Média.

- A Distinção Gelasiana (494)

O Bispo de Roma, “Papa” Gelásio I (492-496) efetuou a distinção entre o poder temporal dos imperadores e o espiritual dos papas, considerando superior o poder destes últimos. Envia um documento ao imperador do Oriente (Anastácio).Definiu a teoria dos dois poderes: o poder temporal (poder do imperador) e o poder espiritual (poder dos bispos). Os bispos, de acordo com essa teoria, seriam superiores ao poder temporal. Estabelecido ainda que a figura do papa não poderia ser julgada por ninguém. Dizia que o papel do Pontífice era antes ouvir do que julgar.

- As Heresias

Define-se como negação ou dúvida pertinaz de uma verdade que se deve crer com fé divina e católica, por quem recebeu o batismo. Ao longo da história da Igreja vemos: O Gnosticismo (séc. II); Maniqueísmo (séc. III); Arianismo (séc. IV); Pelagianismo (séc. V); Iconoclastas (séc. VIII); Cátara e valdense (séc. XII-XIII); Protestantismo e Anglicanismo (séc. XVI); Jansenismo (séc. XVII); Modernismo (séc. XIX). O relativismo doutrinal e moral são tidos como a grande heresia atual. O rigor da Igreja no combate às heresias e cismas variou ao longo dos tempos, com períodos de grande repressão, sobretudo quando tais desvios eram cominados com penas graves pelo poder político.

- Os Mosteiros

Vemos com São Bento de Nursia (529), uma retomada e revigoramento dos mosteiros. Os ermitões (Ermo – significa desertos) atuavam sozinhos e passam a se organizar em pequenos grupos. São Bento traça uma regra, dando uma forma a vida monástica, a qual passa a ser copiada em outros mosteiros. O dia do monge é dividido em 7 momentos de oração, mais o trabalho manual (penitência), produz seu alimento. “Ora et Labora”. Não é necessário buscar mosteiros distantes, mas se santificar com aqueles que convive. Deu forma ao monasticismo medieval. Ao longo da Idade Média vemos que os mosteiros preservam as escrituras sagradas, tornam-se refúgio, guardam as obras de arte e cultura...

- As Cruzadas

Atendendo ao apelo do papa Urbano II, em 1095, foram organizadas na Europa expedições militares conhecidas como cruzadas (esses missionários assim se chamavam pela cruz de pano que levavam na veste), cujo objetivo oficial era conquistar os lugares sagrados do cristianismo (Jerusalém, por exemplo) que estavam em poder dos muçulmanos e turcos. Entretanto, além da questão religiosa, outras causas motivaram as cruzadas: a mentalidade guerreira da nobreza feudal, canalizada pela Igreja contra inimigos externos do cristianismo (os muçulmanos); e o interesse econômico de dominar importantes cidades comerciais do Oriente. Os cristãos eram estimulados pelas indulgências que lhes prometiam o perdão dos pecados e a posse do céu. De 1095 a 1270, a cristandade européia organizou muitas cruzadas, tendo como bandeira promover guerra santa contra os infiéis. Era a guerra santa, justa, pois se dizia que os muçulmanos estavam difamando o santo sepulcro, a terra santa. Logo era “justo” que eles fossem retirados, mesmo que fosse a força. Foram, ao todo, oito grandes incursões.

- A Inquisição

Tribunal eclesiástico para averiguar e julgar os acusados de heresia. A sua instituição jurídica data de 1232 (Inquisição Medieval); pelo papa Gregório IX, para disciplinar as freqüentes práticas persecutórias da parte do povo e dos príncipes, muitas vezes sob a forma de linchamentos. A desmoralização pública era a maior pena para os hereges condenados pelos inquisidores (bispos). No séc. XI apareceu uma heresia fanática e revolucionária, como não houvera até então: o Catarismo (do grego katharós, puro) ou o movimento dos Albigenses (de Albi, cidade da França meridional, onde os hereges tinham seu foco principal). Em geral, a Inquisição quando condenava um herege entregava-o ao braço secular, para lhe aplicar o castigo previsto nas respectivas leis e costumes, incluindo a morte na fogueira. A Igreja aplicava a condenação espiritual, “no outro mundo”. O seu funcionamento dependia muito dos inquisidores, que eram normalmente dominicanos, alguns deles elevados às honras dos altares (como S. Pedro de Verona, morto às mãos dos Cátaros). Devem reconhecer-se, além da crueza própria dos costumes de então, verdadeiros abusos e injustiças (como a condenação dos Templários e de Sta. Joana de Arc). Ficou também célebre a condenação (sem execução) de Galileu. Nos séculos. XV e XVI, a Inquisição foi reorganizada para enfrentar a heresia protestante, em geral, a pedido dos príncipes católicos. Em Espanha foi autorizada em 1478, em moldes que a fazia depender muito do poder civil. Em Portugal teve acuação moderada desde o séc. XIV, mas só se tornou particularmente rigorosa com D. Manuel I e D. João III, pelas medidas discriminatórias contra judeus e cristãos-novos. A Inquisição é inconcebível para a atual mentalidade, mas a sua correta apreciação deve ter em conta os tempos em que vigorou, em que a heresia era sentida como perigo grave para a unidade da Igreja e do Estado, e em que as penas aplicadas eram comuns no direito corrente dos povos. A Igreja aplicava as penas espirituais (na outra vida), tais como a excomunhão. Os condenados pela inquisição eram entregues às autoridades administrativas do Estado, que se encarregavam da execução das sentenças seculares. As penas aplicadas a cada caso iam desde a confiscação de bens até a morte em fogueiras. A intervenção do poder secular exerceu profunda influência no desenvolvimento da inquisição. As autoridades civis anteciparam-se na aplicação da forma física e da pena de morte aos hereges; instigaram a autoridade eclesiástica para que agisse energicamente; provocaram certos abusos motivados pela cobiça de vantagens políticas ou materiais.

- A Querela das Investiduras

A Questão das Investiduras refere-se ao problema de a quem caberia o direito de nomear sacerdotes para os cargos eclesiásticos, ao papa ou ao imperador. No século X, o imperador Oto I, do Sacro Império Romano Germânico, iniciou um processo de intervenção política nos assuntos da Igreja a fim de fortalecer seus poderes. Fundou bispados e abadias; nomeou seus titulares (abades leigos) e, em troca da proteção que concedia ao Estado da Igreja, passou a exercer total controle sobre as ações do papa. Durante esse período, a Igreja foi contaminada por um clima crescente de corrupção, afastando-se de sua missão religiosa e, com isso, perdendo sua autoridade espiritual. As investiduras (nomeações) feitas pelo imperador só visavam os interesses locais. Os bispos e os padres nomeados colocavam o compromisso assumindo com o soberano acima da fidelidade ao papa. No século XI surgiu um movimento reformista, visando recuperar a autoridade moral da Igreja, liderado pela Ordem Religiosa de do mosteiro de Cluny (França). Esses ideais foram ganhando força dentro da Igreja, culminando com a eleição, em 1073, do papa Gregório VII, antigo monge daquela ordem reformista.

- A Reforma Gregoriana (Século XI)

Os papas escolhidos passam a ser de origem germânica (monges), logo os papas romanos saem de cena, pois os primeiros não teriam parte com a política local. Com isso as reformas têm inicio com esses papas de origem monástica, com amplas mudanças de cima para baixo, hierarquizada, uma reforma das instituições. Hildebrando, reformador ligado ao movimento de Cluny, tinha acesso ao papa e, sob sua influência, Nicolau II criou em 1059 o Colégio dos Cardeais, com finalidade de eleger o papa, limitado o cesaropapismo. Primeiro, há uma reforma do clero, contra os abusos existentes, das instituições (reforma da Igreja). Também havia a necessidade da mudança dos corações, dos pensamentos (reforma na Igreja). A reforma viria do papado, passaria pelos bispos, presbíteros e monges até chegar aos leigos. Esse espírito de reforma foi lento e progressivo, aos poucos, vemos os abusos sendo retirados. Em 1073, Hildebrando foi eleito papa, com o nome de Gregório VII. Instituiu totalmente o celibato dos sacerdotes, em 1074, e proibiu que o imperador investisse sacerdotes em cargos eclesiásticos, em 1075. O Imperador alemão Henrique IV reagiu dando o papa como deposto. Desenvolveu-se, então, um conflito aberto entre o poder temporal do imperador e o poder espiritual do papa. O papa considerou o imperador igualmente deposto, excomungando-o, e proibindo os vassalos de lhe prestar serviço, sob pena de excomunhão. Há uma interdição (sem batismos, sem eucaristia, sem extrema unção). Henrique foi ao Castelo de Canossa em 1077 e pediu perdão ao papa, que o concedeu. Esse conflito foi resolvido somente em 1122, pela Concordata de Worms, assinada pelo papa Calixto III e pelo imperador Henrique V. Adotou-se uma solução de meio termo: caberia ao papa a investidura espiritual dos bispos (representada pelo báculo), isto é, antes de assumir a posse da terra de um bispado, o bispo deveria jurar fidelidade ao imperador.

- Hospitalários (Ordem dos)

O ideal cavalheiresco da Idade Média levou à criação de várias instituições de apoio aos doentes internados, ordem leiga de caráter assistencialista (1113), hospital para os peregrinos que vinham feridos e cansados.

- Os Templários (Ordem dos)

Ordem fundada em França (1119) para lutar contra os infiéis. O nome veio-lhes da casa que tiveram em Jerusalém sobre as ruínas de uma mesquita (cavaleiros da Ordem doTemplo). Fazem votos dados pelo patriarca de Jerusalém. Em 1129, vê-se a implantação militar. Prestaram notáveis serviços na Terra Santa e no Sul da Europa, chegando a ter 5 províncias e 4000 membros. É oficializada em 1199. As benesses recebidas de reis e papas deram-lhes grande poder financeiro, o que levou Filipe o Belo, rei de França, a acusá-los, com a conivência da Inquisição, de crimes graves, obrigando o Papa (Clemente V) a suprimi-los. Muitos foram mortos. Os seus bens, em França, foram confiscados pelo rei; em Portugal, passaram para a Ordem de Cristo, fundada por D. Dinis.

- O Cisma do Ocidente (1378-1417)

Foi resultante da coexistência de papas e antipapas, fruto de rivalidades dentro e fora da Igreja. Não há um “cisma” de fato, pois o que se dividiu é a obediência a dois papas e não à obediência eclesial. Após a morte do papa Gregório XI, há um conclave com 16 cardeais e depois de muitas dificuldades elegem um italiano, Urbano VI. Ele era intransigente, rude, indelicado e os cardeais assinalam que querem rever a decisão e pedem a sua renúncia. Ele rejeita. Grande parte dos cardeais vão para Nápoles e realizam novo Conclave, elegendo Clemente VII. A Igreja passa a ter “dois papas”. Eles ficam em Avinhão (França). A obediência fica dividida, ambos governando. Estados que apoiavam Urbano VI (Escandinávia, Flandres, Inglaterra, o Imperador e a maioria dos príncipes) usam a força para destituir Clemente VII (apoiado pelos parentes do rei da França Carlos V, Escócia, Castela), como uma cruzada. Essa seria a “Via Facti”. Os reis, os prelados, os párocos, as ordens religiosas tomam partido e ajudam nessa adesão de obediências. Em 1394, morre Clemente VII e é eleito Bento XIII. Também morre Urbano VI e é eleito Gregório XII. Continuam dois papas a governar. Em 1409, os dois grupos buscam uma via conciliar para resolver a situação, com o Concílio de Pisa, destituem os dois papas e elegem Alexandre V (com a maior parte das Ordens Religiosas decididas a fazer uma inteira reforma na Igreja). Os dois papas não aceitam e a igreja passa a ser governada por 3 papas. Alexandre V morre e é eleito João XXIII (nome depois cancelado e renascido somente no século XX - e já no ano seguinte tomou posse da catedra romana). Apenas em 1417, vemos uma solução: João XXIII se demite, Gregório XII abdica e Bento XIII é deposto e se isola na Catalunha, sem apoio. Martinho V (1417-1431) é eleito e traz a unicidade novamente. Retorna para Roma. Em 1439, ainda teríamos o antipapa Félix V, contudo, não avança tal fato.


· Concluindo...

A intervenção do poder secular exerceu profunda influência no desenvolvimento da inquisição. As autoridades civis anteciparam-se na aplicação da forma física e da pena de morte aos hereges; instigaram a autoridade eclesiástica para que agisse energicamente; provocaram certos abusos motivados pela cobiça de vantagens políticas ou materiais. De resto, o poder espiritual e o temporal na Idade Média estavam, ao menos em tese, tão unidos entre si, que lhes parecia normal recorrer um ao outro em tudo que dissesse respeito ao bem comum. Quanto a Inquisição Romana instituída no séc. XVI era herdeira das leis e da mentalidade da lnquisição medieval e ampliada pela profunda relação entre o “Trono e o Altar”, mas isso é assunto para um outro texto.

Deixo um breve texto do nosso saudoso D. Estevão Bettencourt sobre o tema:

“Em nossos tempos, o Papa João Paulo II pediu perdão repetidamente por falhas dos filhos da Igreja. É de notar que não mencionou ‘falhas da igreja’, mas ‘falhas dos filhos da Igreja’. Implicitamente retomou a distinção entre pessoa e pessoal da Igreja: pessoa seria a Igreja Esposa de Cristo, que o Senhor vivifica e à qual garante a fidelidade ao Evangelho; pessoal seriam os fiéis, que nem sempre obedece às normas da Santa Mãe Igreja. O pecado está na Igreja, mas não é da Igreja; é resquício da velha criatura dentro da novidade da criatura oriunda do Batismo e da inserção em Cristo.” (in: BETTENCOURT, E. in: Na História da Igreja luzes e sombras)

Professor Juberto Santos
historiador_ufrj@yahoo.com.br

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Falece Dom Estevão Bettencourt



Falece Dom Estevão Bettencourt


Faleceu no dia 14 de abril, no Rio de Janeiro, no mosteiro de São Bento, o monge beneditino, exegeta e teólogo brasileiro, Dom Estevão Bettencourt. O corpo foi velado no local e a Missa de corpo presente às 16 horas. Foi enterrado no dia 15/04 no Mosteiro de São Bento.
1. VIDA

Os elementos biográficos de D. Estêvão Bettencourt são aqui considerados em três etapas: do nascimento ao ingresso no Mosteiro de São Bento (A); do ingresso na Abadia do Rio aos estudos em Roma (B); do retorno de Roma até a presente data (C).
A. Do Nascimento ao Ingresso no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro

Flávio Tavares Bettencourt nasceu na cidade do Rio de Janeiro aos 16 de setembro de 1919, sendo seus genitores Antônio de Souza Bettencourt e Maria Tavares Bettencourt. Aos 9 de novembro de 1919 recebeu o sacramento do Batismo ministrado pelo Monsenhor Luiz Gonzaga do Carmo na Igreja Nossa Senhora da Glória (Laranjeiras). Fez sua Primeira Comunhão aos 15 de agosto de 1930, na Capela do Colégio de Nossa Senhora de Sion (RJ). Aos 4 anos de idade viajou com os pais para Paris, onde permaneceu até 1928 quando então regressou ao Brasil. Os estudos, iniciados em Paris no Lyceé Buffon prosseguiram no Colégio de São Bento do Rio de Janeiro, onde, de 1931 a 1935, fez o curso ginasial. Foi através do convívio diário com os monges - sobretudo com D. Pedro Candiota, D. Vicente Ribeiro e D. Tarcísio Silva Ferreira - que Flávio Bettencourt chegou a conhecer a vida monástica. Esses monges tiveram papel preponderante no crescimento de sua vida espiritual e na descoberta de sua vocação beneditina. Tendo já concluído o curso ginasial, ingressou no Mosteiro de São Bento a 1 de fevereiro de 1936.
B. Do Ingresso na Abadia do Rio aos Estudos em Roma

Decorridos sete meses de sua entrada, recebeu aos 6 de outubro de 1936 o hábito de noviço das mãos do Abade D. Tomás Keller e, em razão de sua devoção aos mártires da Igreja primitiva, teve como padroeiro onomástico o protomártir S. Estêvão. Emitiu seus primeiros votos monásticos a 7 de outubro de 1937 na sala capitular do Mosteiro; sua profissão temporária foi recebida pelo Prior D. Bento Martins. Desde a mocidade quer durante o curso ginasial no Colégio de São Bento, quer no período de seu noviciado, foi D. Estêvão um apaixonado pelos estudos. Ele é a figura típica do homem plenamente dedicado ao estudo. Imbuído do conhecimento do grego, do latim, do francês, do inglês e do alemão, ele foi mandado por D. Tomás Keller para Roma a fim de doutorar-se em Filosofia no Pontifício Ateneu de Santo Anselmo, onde permaneceu de novembro de 193 a janeiro de 1945. Chegou no Colégio de S. Anselmo a 1 de novembro de 193, iniciando logo o curso de Filosofia. Em julho de 1939 recebeu o grau de bacharel e, em seguida, presta exame de Licenciatura (De universa) aos 18 de maio de 1940.Pouco antes de iniciar o curso de Teologia, fez sua profissão solene em Monte Cassino aos 7 de novembro de 1940, nas mãos do Abade D. Gregório IX Diamare. Recebeu o diaconato aos 12 de julho de 1942, conferido pelo Arcebispo D. Aloísio Tráglia, na Basílica de Santo Antonio de Pádua, em Roma. A ordenação presbiteral realizou-se na igreja de S. Agnese na Piazza Navona aos 18 de julho de 1943, ministrada pelo mesmo Arcebispo que o fez diácono.Importante foi o seu contato com o monge beneditino D. Anselmo Stolz. Percebendo em D. Estêvão Bettencourt uma inteligência lúcida e profunda bem como sua formação monástica-espiritual, procurou com habilidade convencê-lo a fazer o doutorado em Teologia. Não obtendo êxito, resolveu escrever uma carta a D. Tomás Keller solicitando gentilmente que seu aluno D. Estêvão Bettencourt tivesse a permissão de doutorar-se em Teologia Dogmática. O pedido foi prontamente acolhido pelo Abade do Rio1.Assim, depois de ter iniciado o curso de Teologia em 1940, recebe o grau de bacharelado em 1942 e presta o exame de Licenciatura em julho de 1943. Em novembro de 1944 defende a tese de doutorado sobre Orígenes2, tendo como moderador D. A. Stolz. Em outubro de 1944 matriculou-se no Pontifício Instituto Bíblico de Roma para cursar algumas matérias, pois ele antecipara a redação e a defesa de sua tese de doutorado. Aos 21 de janeiro de 1945 apresentou-se a oportunidade rara de voltar ao Brasil devido à II Guerra Mundial.

C. Retorno de Roma

Aos 2 de fevereiro de 1945 chegou ao Rio. No Mosteiro realizou um Seminário sobre a Sabedoria Hipostática no Antigo Testamento sob a orientação do Abade D. Tomás Keller, a fim de completar os créditos necessários com a autorização do Pe. Reitor do Colégio de S. Anselmo. Iniciou-se então uma nova fase de sua vida, marcada sobretudo por uma intensa atividade no campo teológico, sempre associada à contemplação e ao ritmo do "ora et labora" de S. Bento. Assim podemos destacar três aspectos desse labor eclesial:

a) O ensino das ciências bíblicas e da teologiaDesde o ano letivo de 1945, D. Estêvão assumiu a cátedra bíblica na Casa de Estudos da Congregação que funcionava no interior da Abadia do Rio de Janeiro e que, como Escola Teológica da Congregação Beneditina do Brasil, passou a funcionar em sede própria no Mosteiro. Ao longo dos anos foi professor também de diversas disciplinas filosóficas e teológicas em várias Universidades e Institutos do Riop de Janeiro: na Universidade Santa Úrsula (de 1946 a 1980), na Pontifícia Universidade Católica (de 1958 a 1961 e de 1968 a 1974), na Universidade Católica de Petrópolis (de 1968 a 1978), no Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro (desde 1985), na Escola Superior de Catequese "Mater Ecclesiae", na Escola "Luz e Vida" de Catequese, no Instituto Pio X do Rio de Janeiro (1957 e 1958).


b) Participação em cursos, simpósios e congressosAlém das aulas regulares durante os semestres acadêmicos, D. Estêvão Bettencourt participou de várias Semanas Bíblicas Nacionais promovidas desde 1947 pela Liga de Estudos Bíblicos (LEB) do Brasil3, bem como nas Semanas Teológicas organizadas pelo "Studium Theologicum" de Petrópolis. Na qualidade de representante da LEB, tomou parte na XX Semana Bíblica Italiana realizada no Instituto Bíblico de Roma de 23 a 28 de setembro de 1968. Foi também conferencista e debatedor nas quatro Semanas Internacionais de Filosofia, realizadas respectivamente em São Paulo (1972), Petrópolis (1974), Salvador (1976) e Curitiba (1978). Representou a Arquidiocese do Rio de Janeiro no IV Congresso Eucarístico Internacional realizado em Melbourne (Austrália) em 1973. Ainda nesse mesmo ano foi para Jerusalém aperfeiçoar-se em arqueologia bíblica na Escola Bíblica Franciscana e em exegese bíblica na Escola Bíblica dos Dominicanos. De 23 a 25 de junho de 1976 participou do I Seminário de Integração "Sistemas de Ensino-Comunidade do Estado do Rio de Janeiro" como representante da Universidade Santa Úrsula. Entre suas participações mais recentes em encontros internacionais, destacamos, por fim, o Congresso de Teologia realizado em Caracas (Venezuela) de 14 a 17 de fevereiro de 1988, onde apresentou a conferência intitulada "Jesus Histórico"4.


c) Outras atividadesEntre outras atividades importantes, salientamos as seguintes: Diretor do Instituto de Teologia da Associação Universitária Santa Úrsula em 195; Decano do Centro de Teologia, Filosofia e Ciências Sociais em 196 e 197; Vice-Reitor da Faculdade Eclesiástica de Filosofia João Paulo II desde 1981; Membro dos Conselhos Universitários e de Ensino e Pesquisa de 1976 a 1980; Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos desde 1974; Vice-Presidente da LEB de 1964 a 1967 e de 1975 a 1977; Consultor da Comissão Episcopal de Doutrinas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; Membro da Comissão de Diálogo Judeo-Cristão da CNBB; Diretor Executivo das Escolas "Mater Ecclesiae" do Rio de Janeiro. Assinalamos, por fim, que desde 1982 é secretário da Instituição Communio e redator-chefe da revista homônima no Brasil, participando anualmente dos encontros internacionais organizados pela entidade.


2. A OBRA EXEGÉTICO-TEOLÓGICA


Tínhamos originariamente a esperança de que este festschrift incluísse uma bibliografia completa de tudo quanto D. Estêvão Bettencourt escreveu ao longo de 44 anos de cátedra. Esta empresa não foi possível porque ultrapassaria os limites deste [escrito]. Por essa razão decidimos elencar aqui todos os seus livros e artigos mais significativos, bem como seus cursos por correspondência e suas traduções. Não fazem parte deste levantamento suas recensões, suas cartas e seus artigos publicados nas revistas Pergunte e Responderemos5 (a não ser quando este período reproduza comunicações feitas em Congressos) e Em Comunhão6. Antes, porém, de enumerar seus escritos, convém ressaltar alguns aspectos de sua obra exegético-teológica:


O primeiro aspecto a destacar em toda obra de D. Estêvão Bettencourt é essencialmente este: fidelidade plena ao Evangelho tal como é professado pelo Magistério da Igreja. Em seus livros recorre sempre ao dado bíblico, aos Santos Padres e às diretrizes emanadas da Santa Sé, sem negligenciar as conquistas do método histórico-crítico (formgeschichte) aplicado à Bíblia. Suas obras sobre o Antigo e o Novo Testamento trouxeram imensos progressos para o Movimento Bíblico no Brasil7, de tal modo que foram leitura obrigatória para todos intelectuais católicos e teólogos brasileiros que se interessavam pelo estudo sério da Bíblia. Como estudioso e homem da Igreja, procura transmitir e explicar o depósito comum da fé. Todo seu labor teológico é plenamente um serviço eclesial. Na revista Pergunte e Responderemos nota-se não somente a preocupação de anunciar as verdades que pertencem à essência da fé católica, mas também o empenho pastoral em enfatizar que a Bíblia é a Palavra de Deus para o Povo de Deus. Além de apresentar o pensamento autêntico da Igreja em relação aos diversos ramos do saber (exegese, teologia, filosofia, antropologia, etc.), Pergunte e Responderemos aclara também as verdades fundamentais da fé quando estas são impugnadas por qualquer tipo de publicação. Até hoje esta revista continua a trazer informações atualizadas sobre questões bíblicas.


O segundo aspecto é o seu modo de fazer teologia sempre a partir de sua vivência espiritual. Ele realizou uma integração entre exegese científica e exegese espiritual, entre crítica e investigação teológica. Longe de se contentar com o estudo de aspectos secundários dos textos bíblicos, ele valoriza a mensagem que eles contêm: mensagem principal, que é uma mensagem religiosa, um apelo à conversão e uma boa nova de salvação capaz de transformar os homens, introduzindo-os na comunhão divina. Seu interesse pela significação teológica e religiosa da Bíblia se deve ao fato de que a Palavra de Deus é portadora de valores permanentes (conversão, fé, reconciliação). Sempre procura projetar em seus leitores que a Igreja de ontem e de hoje, com suas normas e ritos, é a expressão da iniciativa salvífica de Deus e o lugar privilegiado do encontro com Cristo e com o Pai. Ao mesmo tempo em que conduz os fiéis a um compromisso sério com a Igreja, D. Estêvão Bettencourt lhes incute também a esperança de uma vida póstuma que o anima continuamente em sua vivência de amor e doação a Deus, à Igreja e ao mundo.


Autor: D. Bento Silva Santos, OSBFonte: Coletânea Tomo I: Homenagem a D. Estêvão Bettencourt, OSB (Edições Lumen Christi, 1990, pp. 1-11